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As ideias defendidas nos artigos publicados neste Blog são de responsabilidade dos autores e não necessariamente refletem a posição institucional da Auditece.

 

Publicado em: 20/04/2026

Teletrabalho na SEFAZ-CE: entre a autoridade e a escuta — uma lição antiga para um problema atual

Por Alejandro Leitão*

A recente edição da Portaria 073/2026, que promove o endurecimento das regras de teletrabalho na Secretaria da Fazenda do Ceará, reacendeu um sentimento já perceptível nos corredores institucionais: a insatisfação de parte relevante da categoria. Mais do que uma mudança normativa, o episódio revela um ponto sensível em qualquer organização complexa — o equilíbrio entre autoridade administrativa e escuta qualificada.

Há um paralelo instigante, e bastante atual, em um conhecido relato bíblico. Ao assumir o trono após a morte de Salomão, o rei Roboão foi confrontado por um povo que pedia alívio de cargas consideradas excessivas. Diante disso, buscou aconselhamento: de um lado, os anciãos, que recomendavam moderação; de outro, seus pares mais jovens, que defendiam o endurecimento como demonstração de força. Ao final, sua resposta sintetizou a escolha feita: “meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões” (1 Reis 12:11). O resultado não foi a consolidação do poder, mas a ruptura do reino.

Guardadas as proporções, o contexto da SEFAZ-CE suscita reflexão semelhante. Em momentos de tensão institucional, decisões que priorizam o controle, sem a devida leitura do ambiente organizacional, tendem a produzir efeitos inversos aos desejados. O endurecimento de regras, especialmente quando percebido como desproporcional ou pouco dialogado, pode fragilizar aquilo que se busca fortalecer: o engajamento e a confiança.

Não se trata, evidentemente, de negar a importância da gestão por resultados, do acompanhamento de desempenho ou da necessidade de ajustes normativos. O ponto central é outro: como essas decisões são construídas e quando são implementadas.

O teletrabalho, ao longo dos últimos anos, deixou de ser uma excepcionalidade para se tornar um instrumento relevante de produtividade e qualidade de vida. Alterações em seu regime exigem, portanto, não apenas fundamentos técnicos sólidos, mas também legitimidade institucional — algo que dificilmente se constrói sem diálogo estruturado com aqueles que vivenciam a política no dia a dia.

Quando os canais de escuta são percebidos como formais ou pouco influentes, o debate tende a migrar do campo colaborativo para arenas de maior tensão. Nesse ambiente, a interlocução institucional se reconfigura: representações unidas passam a assumir protagonismo mais incisivo, o discurso se torna mais polarizado e a implementação das medidas passa a conviver com resistências — abertas ou silenciosas — que comprometem sua efetividade.

O desafio da liderança pública contemporânea não está apenas em decidir, mas em decidir com inteligência política e sensibilidade institucional. Isso implica reconhecer que autoridade não se afirma apenas pelo ato normativo, mas pela capacidade de construir adesão.

Talvez a principal lição que se possa extrair — tanto do episódio bíblico quanto da realidade atual — seja simples, ainda que frequentemente ignorada: endurecer sem escutar pode até parecer um gesto de força, mas, na prática, é muitas vezes o primeiro passo para a perda de coesão.

No fim, a sustentabilidade de qualquer política institucional não depende apenas da sua correção técnica, mas da sua capacidade de ser compreendida, aceita e legitimada por aqueles que a executam.

*Alejandro Leitão é Diretor de Desenvolvimento Técnico-Profissional da Auditece.

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ALEJANDRO MAGNO LIMA LEITAO
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